how they fool you

Now we walk along the same street, in red pairs, and no man shouts obscenities at us, speaks to us, touches us. No one whistles.
There is more freedom than one kind of freedom, said Aunt Lydia. Freedom to and freedom from. In  the days of anarchy, it was freedom to. Now you are being given freedom from. Don't underrate it. 


Margaret Atwood, The Handmaid's Tale
Falling in love, we said; I fell for him. We were falling women. We believed in it, this donward motion: so lovely, like flying, and yet at the same time so dire, so extreme, so unlikely. God is love, they once said, but we reversed that, and love, like heaven, was always just around the corner. The more difficult it was to love the particular man beside us, the more we believed in Love, abstract and total. We were waiting, always, for the incarnation. That word, made flesh.


Margaret Atwood, The Handmaid's Tale
a noite é escura, mas isso não me assusta.
ainda há dois cigarros no maço
e tenho a infância toda por lembrar.

quando era miúda e dormia sestas com a minha avó
a morte tinha um nome 
que hoje provoca em nós o riso:
laranja.

via a mão dela na minha,
e encostava o ouvido ao peito cansado
a contar cada passo do coração.

hoje não sei que nome dar àquela faixa escura
no canto do quarto,
que me lembra o medo que sempre tive de portas abertas,
e distraio-me com coisas do mundo 
sem as chamar até mim.

na infância era tudo muito mais claro
e uma cor era um tigre de sentinela à porta da casa,
ou as maldades que as crianças orquestravam no recreio.

ainda hoje a imobilidade é o estado natural do medo,
mas não repito a ninguém o nome dos meus moinhos.


Leonor Castro Nunes

stay woke

Atlanta, Donald Glover, 2016

how to get fucked

Witness for The Prosecution, Billy Wilder, 1957

o mesmo e o contrário

O contrário de um homem limpo é a água suja.
O contrário do mar é uma mulher cega.
Aquele que derruba uma ponte, constrói um precipício.
As cicatrizes são golpes que não se esquecem.

Há verdades sem limite e há coisas que se acabam:
Os rios são Machado.
Eu amei-te de caixão aberto.
Os lacraus brilham à luz da lua
e depois são, outra vez, venenosos e escuros.

É assim tão simples.

Lutar pelas cinzas é renunciar ao fogo.
Uma palavra dita é um pássaro que voa.
A tua morte está debaixo da minha pele,
como um insecto num copo virado.

Que mais te posso dizer?
Que te amei de Norte a Sul, sem fundo,
com unhas e dentes,
sem segredos.
sem armadilhas.
Que não quis ouvir a tua voz mais uma vez,
nem olhar as nossas fotos,
nem ver-te acariciar com os teus dedos azuis
os cães que comem as sobras da tua vida.

Eu só quero escuridão e fumo.
Eu vim dizer
que te esqueci;
que vou voltar a esquecer-te a cada dia,
cada um dos dias da minha vida.


Benjamín Prado, Adivinha em que mão está a moeda, do lado esquerdo, trad. de Maria Sousa
Digo até ao mar porque em terra já não se pode estar. O céu senta-se por vezes à porta de casa e irrompe em cóleras inexplicáveis. Quanto às estrelas, tornaram-se enfadonhas com a sua barba profunda florescente. Do nadir ao zénite, governa a harmonia, elá temos de aturar as suas histórias de velha porcalhona. Conta, por exemplo, que depois do Mar Morto, o Mar Vermelho é o mais salgado dos mares, sendo essa uma das razões que levaram a primeira civilização a nascer no Egipto: morria-se lá de tédio. Outra vez diz que o cansaço da miséria inclina ao amor. 


Ernesto Sampaio, Pistas Apagadas em  Feriados Nacionais